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08 février, 2007

sexo? não, roupas!

Vejo em nota do Folhaonline ou da Reuters que uma pesquisa de comportamento das norte-americanas mostrou que elas preferem roupas a sexo... e as relações sentimentais, o amor e os homens também aparecem abaixo da roupa na lista das preferências femininas.

Tenho que perguntar então a especialistas... tia Beth e Ré: o que acontece com suas conterrâneas? Por que elas estão mais interessadas em ter 'por fora' que em ter 'por dentro'?
Isso choca, sobretudo porque acontece justamente no país do consumo, onde o que se pode ter 'por fora' custa menos que em qualquer outro lugar do mundo!

Alguém outro arrisca um palpite?

Futuro?

O Calligaris vem com mais uma das suas imperdíveis que copio abaixo. Este artigo saiu hoje na Folha e pode-se acessar o original por aqui.

Ele fala do aquecimento global e sua origem, que é nosso individualismo e que está na base de nossa cultura. Seu otimismo lhe permite sonhar com uma mudança cultural capaz de salvar a Terra.
Eu, cá no meu ceticismo, digo que podemos sim salvar nosso planeta, mas que isso acontecerá apenas se a Terra for suficientemente forte para resistir a um individualismo menos exacerbado que o nosso atual! Isso porque não acredito que nós humanos resistiríamos a uma vida sem individualismo.


CONTARDO CALLIGARIS

O futuro da humanidade

O aquecimento global revela que a ação coletiva é difícil em nossa cultura

A ONU criou um órgão para determinar se está (ou não) acontecendo uma mudança climática global e, se esse for o caso, para explicar sua origem e propor um curso de ação. Na semana passada, esse órgão divulgou um relatório.
Tudo indica que há um aquecimento progressivo do planeta e que esse fenômeno é causado pelo homem. Nossos filhos e netos já conhecerão seus efeitos devastadores: a subida do nível do mar ameaçará nossas costas, e o desequilíbrio climático comprometerá os recursos básicos -em muitos lugares, faltará água e faltará comida.
Esse futuro, próximo e sinistro, não é inevitável: existem ações que podem estancar ou reverter o processo. Mas o acordo internacional e os atos são tímidos, se não nulos.
Claro, podemos nos indignar com os interesses nacionais e particulares que se esquecem da catástrofe que nos espreita para defender o lucro imediato. Mas a encruzilhada atual revela, antes de mais nada, um impasse fundamental da cultura dominante.
Primeiro, um aparte. Nossa espécie se distingue das outras porque se organiza numa grande variedade de culturas (nossos hábitos não são apenas o resultado de uma programação biológica). Essa plasticidade talvez seja a razão da duração e da expansão de nossa espécie. A cultura ocidental, hoje dominante, é particularmente plástica (apta a se transformar). Mesmo assim, é possível que, desta vez, ela não consiga se adaptar de modo a permitir a sobrevivência da espécie. Talvez a fórmula cultural que fez nosso "sucesso" até aqui seja, amanhã, a razão de nosso sumiço. Como assim?
Os humanos (sobretudo na modernidade) prosperaram num projeto de exploração e domínio da natureza cujo custo é hoje cobrado. Para corrigir esse projeto, atenuar suas conseqüências e sobreviver, deveríamos agir coletivamente. Ora, acontece que nossa espécie parece incapaz de ações coletivas. À primeira vista, isso é paradoxal.
Progressivamente, ao longo dos séculos, chegamos a perceber qualquer homem como semelhante, por diferente de nós que ele seja. Infelizmente, reconhecer a espécie como grupo ao qual pertencemos (sentir solidariedade com todos os humanos) não implica que sejamos capazes de uma ação coletiva.
Na base de nossa cultura está a idéia de que nosso destino individual é mais importante do que o destino dos grupos dos quais fazemos parte. Nosso individualismo, aliás, é a condição de nossa solidariedade: os outros são nossos semelhantes porque conseguimos enxergá-los como indivíduos, deixando de lado as diferenças entre os grupos aos quais cada um pertence. Provavelmente, trata-se de uma conseqüência do fundo cristão da cultura ocidental moderna: somos todos irmãos, mas a salvação (que é o que importa) decide-se um por um. Em suma, agir contra o interesse do indivíduo, mesmo que para o interesse do grupo, não é do nosso feitio.
Resumo do problema: hoje, nossa espécie precisa agir coletivamente, mas a própria cultura que, até agora, sustentou seu caminho torna esse tipo de ação difícil ou impossível.
Não sou totalmente pessimista.
Talvez nosso impasse atual seja a ocasião de uma renovação. Talvez saibamos inventar uma cultura que permita a ação coletiva da comunidade dos humanos que habitam o planeta Terra. Estou sonhando? Nem tanto.
Afinal, há bastante tempo, nossa cultura inventa histórias que nos instigam a agir em nome e no interesse da espécie. Centenas de romances e filmes (bons ou ruins, tanto faz) nos propõem inimigos comuns: grandes epidemias e extraterrestres de todo tipo. Outros filmes e romances promovem uma nova aliança dos humanos contra suas próprias invenções: a catástrofe atômica, as máquinas rebeldes e enlouquecidas. Já existem até filmes que contam a reação (tardia, claro) da espécie contra o próprio aquecimento global. E é banal, enfim, que nossas narrativas mostrem que, apesar da diferença dos indivíduos e da variedade cultural da espécie, nossos destinos são, sempre e propriamente, cruzados.
Os positivistas diziam que o clima faz o homem. Pois bem, quem sabe a mudança climática nos obrigue mesmo a transformar nossa cultura.
Para melhor. Última hora. Acabo de assistir ao filme-documentário de João Jardim, "Pro Dia Nascer Feliz". É uma visão terna, seca e justa de nossos adolescentes. Falando em preocupação com o futuro da humanidade, é um filme imperdível.


ccalligari@uol.com.br

02 février, 2007

gaspillage d'énergie

Hier nous avons éteint la lumière pendant notre cours de français à 19h55 pour participer à la manifestation contre le réchauffement climatique.
Le bilan provisoire de ce mouvement (ici) dit que la demande d'électricité a baissé d'un peu plus de 1% en France. Super! Beaucoup de Français ont participé, ce que signifie qu'ils commencent à être sensible à cette question!
On voit ici - comme ailleurs - que le climat est fou: au lieu des températures de environ 5°C, il fait environ 11°C ces jours ci; on voit des arbres en début de floraison en plein hiver! Ces faits rendent les gens plus sensibles à la question de l'environnement...
Je vis dans un pays où la plupart des gens ne font guère attention aux consommations d'énergies. S'il fait chaud à cause du chauffage, on ouvre les fenêtres; La capitale porte aussi le nom de 'ville des lumières', aussi à cause de la quantité incroyable d'eclairage dans les rues et des bâtiments. On roule dans des voitures "musées" qui dépensent beaucoup d'essence et poluent beaucoup. Les motos, qui sont le moyen de transport le plus poluant, sont partout, et pire: elles sont vues avec sympathie parce qu'elles occupent peu d'espace.
Bref, à mon avis, la raison la plus importante des gaspillages d'énergies est leur prix! En géneral les énergies coûtent peu en Françe, ce qui est pervers pour deux raisons:
  1. énergies bon marchés incentivent peu les gens à faire des économies;
  2. en étant bon marchés, elles empêchent des technologies plus efficientes (et naturalement plus chères au début) de voir le jour.
Il faut changer la culture des Français vis à vis de la préservation de l'environnement. Mais sans toucher les pris des énergies, cette tâche va fracasser.
à la fin je dois dire que si je parle de la France c'est parce que c'est l'endroit où je vis actuellement, mais ces réflexions sont valables pour tous les pays, unes plus que des autres!
Je reviens à ce sujet...

04 janvier, 2007

fantasia do harém

O subtítulo da coluna do C. Calligaris de hoje na Folha é "A desigualdade produz, nas elites, a fantasia de estar num harém de corpos escravos". Ele fala do Filme "Em Direção ao Sul" de Laurent Cantet, que está em cartaz em SP, e que mostra mulheres norte-americanas em turismo sexual no Haiti.
Como de costume, ele utilisa a trama do filme para mostrar conceitos muito mais profundos. Neste caso, o sugeito é a fantasia (sexual) de dominação, tão corriqueira para grande parte dos humanos. Sem perder a oportunidade, o Calligaris aplica a mesma idéia para dizer que isso seria uma das causas da estúpida desigualdade brasileira.
O raciocínio explicaria grande parte do turismo sexual que existe no mundo (muitos seriam incapazes de desejar outra pessoa de mesma condição social, e precisariam de um 'corpo', de um outro do 'andar de baixo', sem cidadania).
Eu tenho que lembrar que muitos estudos tecem o mesmo raciocínio para explicar dois outros sujeitos: as necessidades humanas de poder e riqueza. Parece que são dois outros conceitos que se sustentam na mesma desigualdade; seriam algo como "pouco importa o quanto tenho de poder ou riqueza, e sim o quanto tenho mais que as outras pessoas".
Quanta futilidade humana!
Tudo isso é interessante por nos ajudar a compreender melhor o proximo, ser mais empático (ou até, talvez, para nos conhecer melhor).

14 décembre, 2006

da "Inocência" às mesas de bar

Copio a coluna do CCalligaris de hoje da Folha (aqui para assinantes) em homenagem a dois amigos:
  • à Irene que, embora nao esteja nesta peça, é uma dos Satyros e
  • ao Fernando, que tem tudo a haver
O Calligaris fala da peça "Inocência" do grupo "Os Satyros" (que tem recebido prêmios e elogios da critica em São Paulo) que trata do sentido da vida, e emenda para filosofar sobre este sentido da vida em uma mesa de bar, terminando com a critica à soluçao tosca do governo paulistano para as 'bagunças' das mesas de bar nas calçadas.
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CONTARDO CALLIGARIS

"Inocência" e as mesas de bar

Se não sabemos mais sonhar com a vida como deveria ser, podemos abraçá-la como ela é

NO SÁBADO passado, em São Paulo, fui para o Espaço dos Satyros, na praça Roosevelt, e assisti a "Inocência", de Dea Loher, com direção de Rodolfo García Vasquez. A peça fica em cartaz até o dia 18 e volta em janeiro. A montagem é surpreendente pela elegância das soluções cênicas e pela performance de todos os atores.
O texto de Dea Loher é uma meditação (teatral e engraçada: nada de longos discursos) sobre a idéia, própria aos nossos dias, de que a vida não faz sentido. Misteriosamente, a montagem dos Satyros opera um pequeno milagre: ela revela, no pouco sentido do mundo, mil razões para amar a vida. Nisso, ilustra uma moral que aprecio muito: talvez não consigamos mais sonhar com a vida como deveria ser, mas podemos abraçar a vida como ela é.
Na saída do teatro, é de praxe parar numa mesa de bar naquele trecho da praça Roosevelt (escolha entre o espaço dos Satyros, o dos Parlapatões e o bar-antiquário Papo, Pinga e Petisco). A animação da rua responde à inquietude levantada pela peça: talvez a vida não faça sentido, mas nos resta viver. No mínimo, resta-nos a mesa do bar.
Sei que é pouco: a quem se sente abandonado pelas grandes causas comuns, a mesa do bar e sua conversa parecem pálidos reflexos da sociedade desejada. Mas, filosofando: se, por falta de transcendências, devemos encontrar sentido na imanência, é melhor se acostumar a dar relevância às coisas pequenas de cada dia.
Na mesa do bar, a gente dá "uma relaxada": encontra, na facilidade do convívio (ou do "convício", entre cigarros e cervejas), um amparo contra as frestas e falhas mais dolorosas. Considere seus companheiros de mesa: todos parecem espirituosos e bem-humorados.
Mas há um que, uma vez de volta em casa, perseguirá, solitário, na internet, fantasias sexuais que ele nunca se permite viver; há o casal que se deitará sem se abraçar; há outro que não quer ir embora porque a perspectiva da solidão o desespera; há outra que consegue ironizar uma perda cuja lembrança, quando ela estiver sozinha, de novo a arrasará. E por aí vai.
Não se trata de um "fazer de conta": existe uma divisão subjetiva sem a qual viver seria difícil. Já imaginou um dia inteiro na intensidade alarmante de um diálogo com seu melhor amigo, com um terapeuta ou até consigo mesmo, numa noite sem sono?
A única dificuldade com as mesas de bar é que, às vezes, o amparo se dá às custas dos ausentes, a torcida do "outro" time, os "veados", os negros, etc. (a mesa de bar pode ter uma proximidade perigosa com as mesas da infausta cervejaria onde começou o nazismo).
Mas, fora isso, as mesas de bar e as rodas de padaria são uma modesta e frágil presença da vida social concreta: elas mantêm, ao menos, a ilusão de que os outros existem para nós e nós existimos com eles. Falando em mesa de bar, na esquina de meu consultório tem um café, que, até pouco tempo atrás, tinha três mesinhas na rua. Era o lugar onde eu almoçava; era também o lugar onde as pessoas do bairro se encontravam, e a conversa rolava ao lado da banca de jornais, na frente do ponto de táxi.
Ali, vendedores ambulantes paravam entre as mesas. Meninos e meninas de rua pediam aos clientes um refrigerante e um salgado. Em suma, casas e apartamentos se prolongavam para um pouco além das portas trancadas.
Um belo dia, veio um caminhão da prefeitura; disseram que a ocupação da calçada não era legal e levaram embora (triste troféu) as mesinhas e as cadeiras de metal branco. "Quer regularizar? Faça um toldo retrátil novo." Custo: R$ 10 mil, impossível para o café da esquina.
Acho ótimo regulamentar o uso das calçadas. Mas governar, ao meu ver, deveria ser a arte de estimular a (frágil) comunidade que existe. Fazer o quê, deixar tudo na bagunça? Não, mas um funcionário da prefeitura poderia ter chegado no café da esquina (e em centenas de outros bares da cidade) e dito, por exemplo: a gente vai tornar São Paulo mais bonita, é preciso regularizar os toldos, a administração previu sua dificuldade e obteve um empréstimo do BNDES. Você vai poder pagar seus R$ 10 mil ao longo de cinco anos, a juros razoáveis.
Para que isso acontecesse, teria sido suficiente que os governantes pensassem primeiro na vida concreta da gente, que não é nada -pode ser apenas uma mesa de bar-, mas, num mundo com pouco sentido, é o que temos.


ccalligari@uol.com.br

18 mai, 2006

Inimigo comum

O artigo de hoje do Calligaris trata de choque de culturas. Mais uma vez me sinto impelido a reproduzir um de seus artigos inacessiveis a nao assinantes da Folha de SP.
Eu, que mesmo ja a conhecendo bem, me surpreendo com declarações da igraja catolica, quando ouço coisas muito piores fico arrepiado!

CONTARDO CALLIGARIS

Em companhia de Freud
Na revista "New Yorker" de 27 de fevereiro de 2006, foi publicada uma excelente reportagem de David Remnick sobre a chegada ao poder do Hamas, na Palestina.
Remnick entrevistou o xeque Nayef Rajoub, que, nas recentes eleições, foi o recordista de votos da Cisjordânia. Rajoub, depois de lamentar que o mundo ocidental "da moda e da mídia" seja "controlado por judeus", declarou: "Freud, um judeu, é aquele que acabou com a moral, e Marx acabou com as ideologias divinas".
Não sei se Freud acabou com a moral (por razões que explicarei a seguir, penso o contrário) e não parece que Marx tenha acabado com as ideologias divinas. Seja como for, Rajoub tem razão de agrupar Freud e Marx numa mesma execração do Ocidente (que é, segundo ele, devasso e perdido).
Para justificar essa reunião de Marx e Freud, não é preciso recorrer às tentativas (típicas dos anos 60 e 70) de juntá-los num único projeto revolucionário que transformaria de vez a subjetividade (a vida cotidiana) e a organização social e econômica de nosso mundo. Ou melhor, para justificar a antipatia do xeque por Freud e Marx, não é preciso ressuscitar Herbert Marcuse.
Marx e Freud são os pensadores modernos que transformaram mais radicalmente nossa maneira imediata, espontânea, de enxergar a realidade. Pouco importa que sejamos freudianos ou marxistas, pouco importa que a gente tenha lido o que Marx e Freud escreveram: depois deles, pensamos diferente. Como?
Espontaneamente, a partir de Marx, enxergamos nossa realidade social, econômica e política como uma arena de conflitos e, a partir de Freud, pensamos a subjetividade como um conflito interno permanente.
Ora, o xeque Rajoub não gosta de conflitos, a não ser que sejam conflitos bem externos -com o povo judeu, por exemplo, ou com o Ocidente. Conflitos em casa ou na cabeça, nem falar. Rajoub tem razão: a influência de Marx sobre seus eleitores seria péssima, a de Freud pior ainda.
Mas voltemos à idéia do xeque, segundo a qual, entre os ocidentais, Freud teria acabado com a moral. Talvez ele esteja estigmatizando, via Freud, a liberdade de nossos costumes sexuais. Mas é possível que sua crítica seja mais "pertinente": de fato, Freud, com suas histórias de inconsciente, de desejos reprimidos, de conflitos psíquicos, tornou o juízo moral muito complicado.
Na distinção entre o bem e o mal, as coisas se atrapalham quando (na aurora da modernidade ocidental) a gente começa a confiar no foro íntimo de cada um e pára de acreditar cegamente nas regras transmitidas pela tradição, religiosa ou não. Elas só pioram quando, com a experiência freudiana, no dito foro íntimo, enfrentam-se pensamentos e afetos contraditórios e de difícil acesso pelo próprio sujeito.
Segundo o xeque Nayef Rajoub, este é o fim da moral: as pessoas, em vez de obedecer ao que foi escrito ou dito pelos anciões, pensam com sua própria cabeça e, além disso, seus pensamentos são conflituosos e confusos. Mas esse "fim da moral" é o começo do que nós chamamos comportamento moral.
Para o xeque, ser moral significa seguir as regras. Para nós, ser moral significa se perguntar o que é moral e o que não é. A resposta pode ser difícil ou impossível; podemos não "saber" nunca se o aborto ou o suicídio assistido são morais: o que importa é que a gente não pare de se interrogar sobre a moralidade desses atos.
Do ponto de vista ocidental, Rajoub é profundamente imoral, porque não se questiona. E Freud é um pensador moral, por ele ter complicado singularmente nosso questionamento.
O xeque Nayef Rajoub não é o único que não gosta de Freud. Em 2004, um entrevistador perguntou a George W. Bush se sua decisão de invadir o Iraque não podia ser inspirada pela vontade de continuar a obra de seu pai ou de mostrar que ele saberia levá-la até o fim. George W. Bush não gostou dessa sugestão "freudiana" e respondeu que ele não iria "se deitar no divã". Não sei se a decisão de invadir o Iraque foi ou não produzida por algum sintoma da família Bush, mas tendo a pensar que, na hora de decidir sobre a vida e a morte de milhares de pessoas, deitar-se num divã seja uma boa idéia. Não porque isso simplificaria a decisão, mas, justamente, porque a complicaria.
No sábado retrasado, Freud teria feito 150 anos. A data está sendo celebrada -com aplausos e algumas vaias.
Mas, seja qual for nossa opinião sobre a eficácia da psicanálise ou o valor de sua teoria, o fato é que Freud mudou de maneira irreversível nossa experiência de nós mesmos.
Em particular, graças a ele, o foro íntimo, onde fazemos nossas escolhas, tornou-se para sempre um lugar mais complexo e atormentado. Com isso, mesmo se a psicanálise for relegada um dia no museu das terapias ultrapassadas, Freud continuará sendo um luminar da consciência moral ocidental.
Um ditado diz que os inimigos de nossos inimigos são nossos amigos. Ele não é sempre verdadeiro, mas, no caso, nesse começo de século, fico satisfeito de estar em companhia de Freud.

24 février, 2006

imoralidade

Falei ha uma semana (aqui) sobre a série de artigos que o Calligaris esta publicando na Folha de SP às quintas-feiras sobre a moral. Pois no artigo desta semana "A vergonha de ser pobre" ele trata da 'vergonha radical', ou excludente: a vergonha de quem somos; ao contrario da vergonha pontual, que é a de algo que fizemos, e que não nos excluiu da sociedade.
Neste quarto artigo da série ele explica como a humilhante e excludente 'vergonha de ser pobre' imposta pela 'elite' brasileira leva a termos esta 'coletividade animalesca', com tal grau de violência no pais.
Se alguém se interessar pelo artigo A vergonha de ser pobre, pode pedir que envio por email.

16 février, 2006

moralidade

O C. Calligaris tem tratado nas suas ultimas colunas de quinta-feira na Folha de SP sobre o funcionamento de reguladores morais das sociedades para tentar explicar o déficit moral existente no caso brasileiro.
No primeiro artigo "Culpa e Vergonha", ele explica o funcionamento da culpa e da vergonha como reguladores de comportamentos e mostra como a vergonha se torna mais eficiente.
No segundo artigo "Dois tipos de Vergonha", ele trata da vergonha e mostra sua evoluçao ao longo do tempo: como mudam os conceitos de vergonha em funçao da variaçao dos costumes (embora uma vergonha seja imutavel: a de nao viver as paixoes e desejos sexuais).
No terceiro artigo "Privilegiados sem-vergonha" (hoje), ele trata da 'vergonha de ser pobre', ou da 'elite' brasileira e os costumes enraizados que sustentam o déficit moral brasileiro.

12 février, 2006

carta do Calligaris às elites muçulmanas

Ainda na Folha de SP de hoje, um artigo do C. Calligaris sobre os conflitos muçulmanos.
Como de costume, o Calligaris apresenta sua critica de forma sutil, diplomatica e contundente. Aqui ele aponta a falência da cultura islã e chama os lideres muçulmanos a tomarem atitudes coerentes e conseqüentes, para que não sejam, mais tarde, culpados pelo desastre de seu povo.
Os assinantes podem ler aqui o artigo. Para os outros, copio a seguir o texto.

"
Carta aberta às elites religiosas muçulmanas
CONTARDO CALLIGARIS

COLUNISTA DA FOLHA

Caros amigos,
há, entre nós, grandes diferenças culturais, ou seja, não temos os mesmos hábitos da mente e do corpo. Além disso, entre o islã e, digamos assim, o Ocidente, há uma longa história de desconfianças e guerras. Mas a virulência atual do conflito pede novos esforços para saber o que acontece.
Nestes dias, a imprensa propôs fotografias de manifestantes assediando embaixadas ocidentais no mundo islâmico. Curioso, em muitas delas, à primeira vista, não dá para entender se os manifestantes estão atacando as embaixadas ou tentando entrar para pedir asilo. Claro, o equívoco é meu, mas ele tem suas razões de ser.
Entre aqueles manifestantes, quantos já planejaram emigrar para um país europeu? Na hora em que as massas se reuniam para saquear e queimar, quantos muçulmanos estavam se aventurando pelo estreito de Gibraltar, num barco mal aparelhado, na esperança de alcançar a Espanha? Quantos circulavam pelos Bálcãs, escondidos num caminhão, para chegar a Londres?
Não digam que são traidores, vendidos ao sonho ocidental. Se os milhões de imigrantes muçulmanos que vivem na Europa fossem "vendidos", eles estariam, hoje, solidamente integrados à população européia. Acontece o contrário, e não é apenas pela resistência das nações ocidentais. O fato é que o êxodo de populações muçulmanas à Europa inaugurou uma nova forma de emigração, especialmente trágica. Explico.
Qualquer emigração é um movimento de idealização e de amor. Mesmo que procure apenas melhorias financeiras, o emigrante deposita seus sonhos no país que o hospedará. Ora, há uma tragédia que dura há décadas: a dolorosa divisão, na alma do emigrante muçulmano, entre a esperança que deposita no país para onde se muda e seu ódio mandado pela nova vida com a qual ele sonha.
Mohammed Atta, um dos pilotos do 11 de Setembro, passou a noite do dia 10 numa boate, bebendo e festejando. Estranho modo de se preparar para o sacrifício de sua vida, não? Talvez, espatifando-se contra o World Trade Center, o que ele queria não fosse tanto matar milhares de americanos quanto, suprimindo-se, acabar de vez com sua intolerável contradição interna.
O conflito, caros amigos, talvez não seja entre islã e Ocidente. Talvez seja um conflito exasperado dentro da alma islâmica, entre a sedução do Ocidente e a fidelidade à cultura e à religião ancestral. Esse conflito não será resolvido por guerras ou terrores, nem por protestos nem por tratados. Ele só pode ser resolvido por vocês. Há momentos em que as elites culturais e religiosas podem decidir o destino de seus povos. Espero que não seja tarde, espero que a voz que chama do minarete ainda possa sarar o conflito da subjetividade muçulmana hodierna.
Tomemos o caso dos medíocres desenhos publicados por um jornal dinamarquês. Alguns deles (os demais são inócuos, como vocês sabem) são charges contra o Maomé dos homens-bomba, o Maomé invocado pelo apóstolos do terror. Ora, sou cristão, criado na religião católica. Qual seria minha reação diante de charges em que Cristo apareceria liderando o extermínio dos albigenses, ou, vestido de inquisidor, torturando apóstatas e colocando fogo na pira de Giordano Bruno? Como reagiria ao ver Cristo, nos paramentos do papa romano, vendendo indulgências plenárias ou, sapeca, furando camisinhas numa sauna gay? Ou, então, engravatado como um pastor, exigindo o dízimo dos pobres? Uma coisa me parece certa: não me indignaria com quem desenhou as charges, mas com aqueles que se escondem atrás de Cristo para praticar seu sectarismo, sua ganância, sua sede de poder ou sua estupidez.
Para dormir tranqüilo, não me bastaria mandar uma carta de desculpas às viúvas cátaras e aos amigos de Giordano Bruno. Para dormir tranqüilo, precisaria denunciar os falsários que se servem de Cristo para justificar sua iniqüidade. Hoje, no cristianismo, esse gesto é fácil. Um cardeal poderia conclamar que o papa é um apóstata; no máximo, seria excomungado por uma igreja cuja autoridade, de qualquer forma, ele não reconhece mais.
Mas houve uma época em que os homens religiosos da Reforma arriscaram sua vida para produzir um cisma que era imposto por suas consciências.
Ora, o terror se espalha, e ouço só palavras constrangidas e formais. Onde estão os imames que tenham a coragem de jogar um anátema contra o ódio e o terror? Quando, caros amigos, aparecerão seus Luteros? No lugar onde eles são esperados, aparecem imames decretando a morte de escritores laicos, ou, por que não, de chargistas dinamarqueses.
Não é por acaso que a modalidade do terror islâmico, hoje, é o atentado suicida. Não é uma ironia da história que os mortos destes dias se contem entre os manifestantes muçulmanos. Pois uma contradição interna, atiçada até a um paroxismo insolúvel, só se resolve no gesto extremo de quem, para silenciar seu conflito, acaba com sua própria vida.
Se vocês se calarem hoje, se não defenderem o Maomé no qual vocês acreditam contra os que o aviltam invocando-o em seu ódio do Ocidente, se vocês não tiverem a coragem de apaziguar a alma islâmica, a história contará que vocês levaram seu povo ao suicídio.
"

terror islâmico

Apos varios dias de violências, terrorismo e coisas que tais praticados pelos islâmicos em 'resposta' às charges criticando este terrorismo recorrente, começam a aparecer observações relacionadas a esta violência descabida.
Em editorial de hoje com o titulo "Culto ao Terror", a Folha de SP critica levemente os muçulmanos.
Eu, na falta de melhor diplomacia, tenho que apontar que este terror islâmico é induzido e mantido pelas suas lideranças religiosas. Em uma cultura totalmente centrada na religião, onde os lideres manipulam até a vida dos seguidores em prol da sua causa, esta bagunça que estamos vendo é sim conduzida pelos lideres islâmicos!
Com tudo o que esta acontecendo, os judeus devem estar sorrindo, porque eles devem sair no lucro: A 'simpatia' ocidental aos muçulmanos que sofrem a violência israelense começa a ser repensada. Começa-se a ver que a violência praticada pelo estado de Israel não é de todo gratuita.
Os protestos violentos atuais servem ainda para realimentar a percepção popular da ligação dos religiosos islâmicos com o terrorismo.

07 février, 2006

charges terroristas

As discussões sobre liberdade de imprensa estão para todos os lados aqui na Europa e na França, atiçadas pelas revoltas islâmicas contra as charges do maomé-terrorista publicadas em jornais europeus.
O assunto é delicado porque não existem limites claros entre liberdade de expressão e ofensas ou racismos.
O Luiz Weis aborda a coisa dizendo que houve sim ofensa ao povo muçulmano, em sua coluna no Observatorio da Imprensa que pode ser acessada por aqui. Ele alega que, colocando uma bomba na cabeça do Maomé, estar-se-ia dizendo que todos os seus seguidores sejam terroristas.
Eu, embora tenha dificuldade de enxergar o racismo ou ofensa da charge (do contrario teria que fazer o mesmo em quase todas as charges que vejo!), penso que faltou tato da imprensa europeia para questão, dado o momento atual da 'onda anti-islã', que é consequência dos atos terroristas relacionados aos seguidores fundamentalistas dessa religião.

Mas uma coisa que me incomoda são as consequências violentas. Sera que os muçulmanos não sabem protestar de forma não violenta?
Protestos com destruições e até mortes têm acontecido em varios paises. Esta dificil ver opniões e ações de lideranças islâmicas no sentido contrario, com protestos razoaveis e pacificos.
Sim, sei que existem pessoas de todos os tipos em qualquer lugar (como a D. Geralda sempre disse...), e, portanto, no islã não seria diferente. Sei também que a imprensa (e seus consumidores) gostam de mostrar (e ver) coisas bizarras. Apesar disso, vejo o estigma da barbarie associado aos muçulmanos ser realimentado a cada dia.

01 février, 2006

Meatrix II

Continuando o artigo anterior...
Os ativistas do lobby do qual o Matrix faz parte nao querem a produçao de alimentos industrial (fazendas industriais, agropecuaria em grande escala). Entao preciso perguntar:
Sem isso, como pretendem alimentar todas as pessoas? Eles esquecem que nosso planeta é muito mais que a rica Europa, que muitas pessoas passam fome. é muito facil para quem é rico dizer que as fazendas industriais devem ser extintas, porque eles podem pagar por alimentos do 'terroir', produzidos artesanalmente (e os que desejam ja o fazem!).
Obviamente os ricos que podem pagar por um produto 'organico', 'bio' ou com a qualidade desejada, ja o fazem e a produçao industrial em nada atrapalha, do contrario, ajuda a segurar os preços em baixo.

No séc XVI, o rei frances Henri IV era considerado um lunatico porque desejava que todos os franceses pudessem comer frango no domingo... hoje eles sao os maiores consumidores de caviar (até a extinçao breve, claro), que chega a custar uns €70mil/kilo (na França).
Nossos conterraneos brasileiros, salvo os indigentes, podem comer carne de BOI pelomenos uma vez por semana, hoje. Como se deu esse milagre?
Alguém muito tempo atras previa que a Terra nao suportaria o crescimento da populaçao por mais algumas décadas... e estamos bem vivos, hoje, varios séculos depois. Como foi possivel?
Claro, agricultura ‘industrial’ mesmo. O mesmo vale para a produçao de carnes, ovos, laticinios...

Embora a produçao ‘industrial’ de alimentos tenha desvantagens (como poluiçao, uso de agrotoxicos, etc, como eles alardeiam), tem também as vantagens, e a principal delas é Terra conseguir sustentar bilhões de pessoas.

Os Ministros Roberto Rodrigues e Celso Amorim nao gostariam nada de ver essas coisas. O Brasil tem trabalhado duro para derrubar as aberrantes barreiras dos paises ricos contra a agropecuaria brasileira, e esse Meatrix vai justamente no sentido contrario.
Sabidamente, o dinheiro e o poder que sustentam a ineficiente agropecuaria europeia sao muito grandes (do tamanho das respectivas barreiras comerciais).

O Meatrix visa banir a industria alimenticia para acabar com as consequencias nao desejaveis.
A soluçao razoavel (e que tem sido utilizada) é atuar para melhorar, limitar e minimizar os efeitos ruins, como varios pesticidas que ja foram banidos.

Claramente o Meatrix e seu ativismo nao é outra coisa que um dos instrumentos de sustentaçao dos absurdos da politica agricola europeia, tudo patrocinado pelos bilhoes de euros de subsidios anuais que seus produtores recebem.

Meatrix

Ontem recebi email de uma amiga (Bete) com o link de um filme de internet que chama The Meatrix (quem se interessar pode ver, com traduçao, clicando aqui).
O nome ja faz alusao ao filme Matrix e a meat (carne). O Meatrix em si é contra "fazendas de produçao industrial" de carnes e parece que tem feito muito sucesso na internet.
No final, o filme chama para a pagina de um movimento que se auto proclama em defesa da "... segurança alimentar, justiça econômica, direitos dos trabalhadores e dos animais..." e coisas que tais.

A arte grafica do filme nao é ruim, a pagina web é grande e tem traduçoes para diversas linguas, o que vai no sentido proclamado de criar um ativismo mundial para a causa defendida.

Eu respondi o email recebido com comentarios que exponho a seguir:

Interessante ver a sofisticaçao dos lobbys em defesa das barreiras comerciais absurdas dos paises ricos na area alimenticia. Revestidos de aparentes 'boas causas', o movimento nao é outra coisa que lobby a favor dos fazendeiros europeus.
Ativistas contra fazendas industriais, o movimento expõe, entretanto claramente, seus objetivos radicais contra a modernizaçao da politica agricola europeia, e com isso, contra os paises do terceiro mundo, como pode ser visto aqui.
Se alguém desconhece, a analise das barreiras europeias contra os produtos dos paises pobres foi feita, entre outros, pelo PNUD da ONU, como mostrado no seu relatorio de 2005 e comentado por mim neste artigo.

Os maiores beneficiarios desse ativismo? A França (o maior beneficiario do protecionismo europeu).
Os mairoes prejudicados? O Brasil (o maior produtor/exportador de produtos alimenticios do terceiro mundo).

Ou seja, meus conterrâneos precisam ter cuidado ao se engajarem em ativismos do tipo!

29 décembre, 2005

2006: sem medo de perder

A coluna do Calligaris de hoje da Folha de Sao Paulo (que transcrevo a seguir porque nao esta disponivel a todos no www.folha.com.br - como sempre!) trata da nossa aversão ao risco e a relaciona às projeções de ano novo. O texto traz ainda os votos para 2006 do autor para os leitores.

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CONTARDO CALLIGARIS


O fim do ano e o medo de perder

O ano acaba. A mudança de data traz consigo uma esperança de renovação: é um momento em que pensamos em nossos projetos -para o ano que vem e também em geral, para o futuro, a longo prazo.
É engraçado. Muitas vezes, acho que o futuro nos preocupa demais, a ponto de nos impedir de saborear o presente. Mas, por outro lado (e paradoxalmente), parece-me que nossos projetos são quase sempre modestos, inibidos, sem ousadia, como se não nos permitíssemos sonhar e correr atrás de nossos sonhos.
Os adolescentes, por exemplo, são constantemente convidados a sacrificar seu presente e a preparar-se para as exigências do futuro ("não saia, pare de vagabundear e sente-se para estudar"). Ao mesmo tempo, na maioria dos casos, o futuro com o qual eles sonham (e que deveria funcionar como seu pensamento dominante) é curiosamente razoável, "sossegado", mas mediano, se não medíocre.
Claro, os pais adotam, de fato, em relação aos filhos, uma espécie de moral estóica: quem desejar menos não será, talvez, mais feliz, mas será sem dúvida menos infeliz em caso de fracasso e de frustração. Queremos tanto o bem de nossos rebentos que acabamos cortando suas asas: "sonha bem quem sonha pouco".
Mas essa explicação não basta: não só os jovens parecem sonhar à surdina. A gente também. Por que será que, quando sonhamos e projetamos o futuro, somos facilmente medrosos?
Em 2002, surpreendentemente, um psicólogo ganhou o prêmio Nobel de Economia: Daniel Kahneman. Todos os seus trabalhos (muitos dos quais escritos com Amos Tversky, que morreu em 1996 e, portanto, não pôde ser premiado junto com seu colega) questionam um pressuposto da teoria econômica (hoje quase defunto), segundo o qual o sujeito da economia (ou seja, nós, quando tomamos decisões econômicas) seguiria princípios racionais, escolhendo o que é mais útil e mais proveitoso.
A teoria que tornou Kahneman e Tversky famosos se chama "Prospect Theory", teoria do prospecto, ou seja, teoria de como a gente avalia as expectativas futuras, no momento de decidir. Eles escreveram dois textos cruciais sobre o assunto, um em 1979 e outro em 1992 (disponíveis ambos on-line no endereço http://prospect-theory.behaviouralfinance.net/).
A "Prospect Theory"" mostra o seguinte: na hora de correr um risco ou de evitá-lo, nossa decisão não é guiada apenas pela consideração das chances efetivas de sucesso ou fracasso, mas outros fatores menos "racionais" (em particular, o medo de perder) tornam-se determinantes.
Escolho uma das experiências realizadas por Kahneman. Note-se que o valor em jogo (digamos, R$ 1.000) corresponde a um terço da renda média do grupo social de onde vêm os entrevistados (as experiências foram realizadas na Suécia e repetidas e confirmadas nos EUA). No começo da experiência, supõe-se que o sujeito tenha recebido, de presente, um dinheiro; dessa forma, as perdas eventuais não mudariam perigosamente sua condição financeira.
Então, você já recebeu R$ 1.000. Agora, você deve escolher entre A) receber R$ 500 certos e B) correr um risco pelo qual há 50% de chances de você ganhar R$ 1.000 e 50% de chances de você não ganhar nada. A grande maioria dos entrevistados (84%) escolhe ficar com os 500 certos e evita o risco de não ganhar nada na esperança de ganhar mais.
Situação inversa. Você recebeu, de presente, R$ 2.000. Agora, você deve escolher entre A) perder 500 inevitavelmente e B) correr um risco pelo qual há 50% de chances de você perder R$ 1.000 e 50% de chances de você não perder nada e ficar com todos os seus 2.000. Aqui uma boa maioria dos entrevistados (69%) prefere correr o risco de perder mais, na esperança, obviamente, de não perder nada. Só 31% optam pela perda inevitável de R$ 500.
Conclusão: quando se trata de ganhar, nossa aversão ao risco é muito maior do que quando se trata de perder. Em outras palavras, não é para ganhar, mas para não perder que estamos dispostos a mais sacrifícios. Para não perder, estamos até prontos a correr o risco de perder mais ainda.
De fato, muitos jogadores conseguem deixar a mesa quando estão ganhando, contentando-se com o dinheiro que levarão para casa, mas são poucos os jogadores que conseguem parar de jogar quando estão perdendo. Em regra, o jogador não se resigna às perdas e segue apostando e acreditando numa mudança da sorte, até esgotar sua conta e seu crédito. Outro exemplo é o do investidor que se agarra a ações que declinam ruinosamente e prefere esperar um milagre a vender e limitar seu desastre.
Ora, a descoberta de Kahneman e Tversky se aplica fora do âmbito estreitamente econômico: na hora de arriscar, o que fala mais alto é o medo de perder. Quando limitamos medrosamente nossos sonhos, o que vale não é tanto a vontade de torná-los mais razoáveis e realizáveis, mas o medo de abandonar o conforto resignado do status quo.
Os psicanalistas dizem a mesma coisa, em termos apenas diferentes: não há desejo sem perdas, e quem não aceita perder se impede de desejar.
Enfim, meus votos para todos: um Ano Novo sem medo de perder.


@ - ccalligari@uol.com.br
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07 octobre, 2005

Berlin et les vélos

« Berlin : le nez dans le guidon »
Une petite et curieuse histoire des vélos à Berlin (en français, avec audio et photos): http://www.lemonde.fr/web/portfolio/0,12-0@2-3238,31-697221,0.html

Erros, crimes, ética e sociedade brasileira

é o que trata o otimo artigo "Erros e Crimes" do Ivan Izquierdo na Folha de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0710200510.htm)
Para quem nao conseguir acessar o artigo, pode pedir que envio por email.
Neste artigo o autor trata (corretamente) da 'banda podre' da sociedade brasileira, e sublinha (aqui, excessivamente otimista) a parcela ética dessa populaçao.
Para quem nao sabe, o Ivan Izquierdo é um dos mais importantes cientistas brasileiros (embora seja argentino) .